terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Abel Problemático.

se for pra me ver morrer amando
por favor não enxugue meu pranto
deixe que digam isso e aquilo
que fui vadio, bêbado ou promíscuo
diga que da cachaça
aproveitei mais das farras do que das ressacas
que meus crimes foram por vaidade
amante das noites quentes
das morenas indecentes
dos rebolados hipnóticos
dos decotes enfeitados de perdição
das curvas sinuosas
dos sorrisos
dos riscos
diga que fui suicida
poeta, ruim de bola e cafajeste
drogado, mentiroso e ordinário
conte sobre meus sonhos de verão
dos meus amigos presos
sobre as viagens de ácido
os sambas antigos com cerveja
diga o quanto eu esperei
por algo que nem sequer existe
diga o quanto amei
e que nunca neguei
paixões e saideiras

domingo, 3 de dezembro de 2017

Birocas Coloridas.

eu já não reconheço mais meus amigos
quase não suporto mais minha família
mas sempre bebo demais
é o que dizem
o caminho de volta pra casa é o mais triste
minha natureza é vadia
que passa os dias vagabundeando
pra lá e pra cá
sem sair do lugar
vendo as luas passando pela minha janela
obcecado por bundas
brigas de torcida, vestidinhos curtos, sorrisos
e sentimentos
sempre que posso xingo deus
e brinco na hora do sexo
com um diabo cochichando no meu ouvido
as vezes me sinto perdido
um passarinho aleijado
que quando dorme sonha estar voando
mas escolho as mentiras mais bonitas para acreditar
é que pra amar eu preciso estar bêbado
ou desesperado

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Miquilina.

enquanto você dançava
eu mastigava meio pedaço de ecstasy
e descobria os sambas ocultos
que os antigos malandros cantavam escondidos
do outro lado da lua
tava tudo ali
no teu corpo moreno de dançarina
no teu sorriso pintado de infinito
entre uma cerveja e outra
eu chegava a imaginar tua boca na minha
essas viagens psicodélicas quando me apaixono
picuinhas sintéticas
é que toda vez que te vejo
você ta sempre mais bonita que da última vez
seus traços negros impregna em minha alma de bandido
e deixa tudo mais bonito

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

João Bolão.

prestava atenção nas coisas que não estavam ali
sendo a afta na sua língua
guardei meus sonhos onde ninguém pode encontrar
nem eu
sinto falta das calçadas
da fumaça ardendo em meus olhos castanhos
sendo filho de ninguém
me preparei pra morrer ás vésperas de um dia qualquer
mas falhei quando a corda de seu violão arrentou
como a que enrolei no pescoço
e outro desconhecido morreu
não eu
hoje bebo sendo só mais um
propenso aos amores impossíveis
odeio nada
odeio tudo
a mesma criança em cima do muro
espiando a vizinha
de calcinha
mandei uma carta pra deus
só pra dizer que ele não existe

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Ainda é Primavera.

é como se todo pano dos vestidos que vejo
me trouxesse você de volta
os tecidos macios no corpo de outras garotas
é bom saborear as manhãs quentes
esperar o mundo acabar é uma arte sinistra
mas o vento sempre me traz mulheres bonitas
e te esqueço aos poucos
em doses mínimas
há quem esconda a dor
eu escrevo
e bebo
e fumo
e trepo
e as vezes ainda te procuro
nos obituários dos jornais
nos muros pichados
nas esquinas do universo
até em outras virilhas
mas só te acho
quando me viro do avesso e te descubro sorrindo
dentro de mim

sábado, 18 de novembro de 2017

Galinha Vermelha.

nunca escutei os conselhos de meus pais
e iniciei minha revolução particular
quando chovia coquetéis molotov
no canto mais escuro da  rua
me contradisse muitas e muitas vezes
roubei livros, beijos e carros
meus amores ainda são todos absurdos
sempre foi mais fácil amar as morenas
minha mania de romances coloridos
na dança favorita das santas bêbadas e epiléticas
é que a vida cobrou caro pra me deixar viver
e o instinto é o mesmo de antes
de moleque malicioso, briguento
que pulava as janelas do mundo
em busca de liberdade
mas acabei preso
quando me vesti de Judas e sem cerimônia me enforquei

domingo, 12 de novembro de 2017

Dalva Muambeira.

eu deveria ter inventado outro amor
mas preferi esperar o sol bater na janela pra tirar tua roupa
decifrei suas marcas escondidas
palmo á palmo
e só o que te pedia
era pra manter meu copo sempre cheio
enquanto houver vida para se gastar
e desejo pra se gozar
tenho sede
não resisto aos vícios
mas isso você já sabe
o mundo inteiro é ciente
e se você rebola na minha frente
eu digo - vem.